Tradição de Cosme e Damião reúne fiéis e une religiões no Rio

Famílias preservam tradição de Cosme e Damião no Rio de Janeiro

A união entre devoção, alegria e partilha mobilizou fiéis de diferentes crenças neste domingo (27) no Rio de Janeiro. As celebrações dedicadas a São Cosme e São Damião movimentaram tanto paróquias católicas quanto terreiros de umbanda, fortalecendo laços comunitários e mantendo viva uma das manifestações culturais e espirituais mais marcantes do calendário fluminense.

Sincretismo e celebração nos terreiros da Zona Norte

No Terreiro de Umbanda Cosme e Damião, localizado em Vila Isabel, o dia festivo contou com a distribuição de bolos, cachorros-quentes, algodão-doce, brinquedos e kits de higiene pessoal, além dos tradicionais saquinhos de doces para crianças e adultos. A líder espiritual da casa, a mãe de santo Ana Carolina Oliveira, explicou que o costume atravessa gerações em sua família há mais de seis décadas, completando agora seis anos de festejos na sede atual.

A sacerdotisa ressaltou que as religiões de matriz africana integraram os santos gêmeos ao seu culto devido à necessidade dos negros escravizados de recorrerem ao sincretismo com o catolicismo para driblar a repressão e expressar sua espiritualidade.

“Cosme e Damião são simbolizados como os erês [entidades espirituais infantis nas religiões de matriz africana],” disse a mãe de santo.

Entre os presentes na ação comunitária em Vila Isabel estava a massoterapeuta Vania Victorio Gonçalves da Silva, que levou a filha Natasha e a amiga Mirele, ambas de 14 anos, para participar da entrega. Adepta de matriz africana, Vania destacou a ligação do rito com sua história familiar, herdada de sua mãe e de sua avó.

“Essa tradição é o resgate da nossa história, dos nossos ancestrais”.

A jovem estudante Mirele Marinho da Silva também ressaltou o significado do festejo público para a afirmação da identidade religiosa.

“Acho importante que a gente celebre abertamente, porque é uma forma de mostrar que a gente não se importa com a intolerância religiosa”.

Fé católica e o testemunho dos mártires

A devoção também tomou conta da Paróquia de São Cosme e São Damião, no Andaraí, onde fiéis participaram de missas solenes. A professora Caroline Pinho de Araújo, de 40 anos, frequenta a igreja desde a infância e encontrou nos santos um elo espiritual presente tanto na sua vivência católica quanto na umbanda.

“Eu agradeço a eles meu emprego, minha saúde, a minha família, e, todo ano, além de vir à missa, a gente também distribui doce em agradecimento a tudo o que a gente tem. É importante manter essa tradição. Crianças e adultos ficam felizes. Ao mesmo tempo, a gente combate discursos de ódio e de intolerância. Pregamos o amor e a alegria de ser criança”, disse Caroline.

O vigário paroquial, padre Luiz Gustavo Menezes do Nascimento, relatou que também recolhia doces quando jovem e apontou a força histórica deixada pelos mártires como elemento decisivo para sua vocação.

“Mas o que me arrastou de verdade foi o testemunho desses homens que deram a vida por Cristo. Então, 1,7 mil anos depois, poder comemorar esses homens é motivo de graça. São Cosme e São Damião foram perseguidos pelo imperador romano Diocleciano, que é responsável por 70% da cultura popular dos cariocas. São Jorge, São Sebastião e São Cosme e São Damião foram martirizados a mando desse imperador”, disse o padre Luiz.

A origem histórica e o papel dos doces na cura

As raízes dessa celebração remontam à Antiguidade. Em publicação nas redes sociais, o historiador e escritor Luiz Antonio Simas resgatou a biografia dos irmãos, que atuaram como médicos no Século 3 d.C., no território onde hoje fica a Síria.

“O que se conta é que eles eram médicos que tratavam das crianças sem cobrar nada pelas consultas e pelos tratamentos. Acabaram sendo martirizados no tempo em que o Império Romano perseguia os cristãos. O que se conta é que eles começaram a se materializar, apareciam materializados para crianças doentes. A tradição fala que eles costumavam ofertar doces para as crianças adoentadas porque dessa maneira elas ficavam mais felizes e a alegria era importante no processo de cura. É o que diz a tradição sobre São Cosme e São Damião.”

Ao unir o gesto caridoso da oferta de doces ao respeito à diversidade de crenças, a comemoração reafirma sua força como patrimônio afetivo e cultural da população carioca.

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